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IMPACTOS SÓCIOAMBIENTAIS NA LAGOA DA TELHA, IGUATU, CEARÁ - BRASIL

Atualizado: 23 de set. de 2025



A Lagoa da Telha: entre a memória esquecida e os desafios ambientais

No coração de Iguatu, existiu uma lagoa que marcou gerações. A Lagoa da Telha não era apenas um pedaço de água no centro da cidade. Ela foi fonte de vida, ponto de encontro, espaço de lazer e símbolo de identidade para quem nasceu e cresceu na região.

Com o passar do tempo, porém, o que era motivo de orgulho virou motivo de esquecimento. A cidade cresceu, asfaltou, construiu e acabou apagando parte da história que estava ligada às suas águas.

Esse é o enredo do meu TCC, que agora compartilho com vocês aqui no blog. Antes de baixar o trabalho completo, convido você a conhecer, em resumo, a história emocionante da Lagoa da Telha.

Introdução:

Iguatu sempre foi chamada de terra das lagoas. O próprio nome da cidade carrega no imaginário popular a presença constante da água como elemento natural e cultural. Quem olha para os mapas antigos ou ouve os relatos de moradores mais velhos percebe como a água moldou a vida, a economia e até os costumes locais.

Entre tantas lagoas que marcaram a cidade, havia uma especial. Não era a maior, nem a mais bonita aos olhos de alguns, mas era a que ficava no coração de Iguatu: a Lagoa da Telha. Sua localização central fez dela não apenas um espaço natural, mas também um ponto de encontro, de trabalho e de referência para a própria identidade da cidade.

A Lagoa da Telha não foi apenas um corpo d’água. Ela foi, por muito tempo, um símbolo vivo da vida comunitária, espaço de convivência e memória. E foi a partir dela que a cidade ganhou seu primeiro nome, quando ainda era conhecida como “Vila da Telha”.

Este texto é um convite a mergulhar na trajetória dessa lagoa. Aqui, não vamos falar em termos técnicos nem acadêmicos, mas em histórias: como nasceu, como foi usada, como desapareceu e como ainda hoje resiste na memória. A Lagoa da Telha é mais do que passado: é também reflexão sobre o futuro de Iguatu.

  A origem da Lagoa da Telha:

Muito antes de existir cidade, a região era habitada por povos indígenas. Para eles, a lagoa era fonte de água, alimento e barro. Com esse barro, moldavam potes, panelas e utensílios que faziam parte da vida cotidiana. A natureza era vista como parte da vida, e a lagoa tinha um papel essencial nessa relação.

Com a chegada dos colonizadores, a mesma argila começou a ser usada de outra forma. Os moradores passaram a moldar blocos de barro em um cavalete de madeira. Quando secavam, lembravam o formato de telhas. Essas telhas passaram a ser usadas para cobrir as casas simples da vila. Assim, nasceu a expressão “Vila da Telha”, origem do nome de Iguatu.

Não era apenas um detalhe técnico: a lagoa estava no DNA da cidade. Ela deu o nome, deu o barro e deu a identidade para a comunidade que crescia ao seu redor. Essa ligação direta entre natureza e cultura marcou o início da história de Iguatu.

Com o tempo, a lagoa deixou de ser apenas fonte de matéria-prima. Tornou-se também referência geográfica, espaço de encontro e até ponto de lazer. A vida social e econômica da cidade estava profundamente ligada à sua existência.

Por isso, falar da Lagoa da Telha é falar da própria origem de Iguatu. Sem ela, talvez o nome da cidade fosse outro. Sem ela, talvez a formação cultural tivesse tomado rumos diferentes.

A lagoa na vida da comunidade:

Durante décadas, a Lagoa da Telha foi palco da vida cotidiana. Moradores iam até lá buscar água, lavar roupas e cuidar dos animais. Crianças aprendiam a nadar em suas águas rasas. Pescadores tiravam peixes que serviam de alimento para muitas famílias. Era um espaço de convivência e sobrevivência.

Ao redor da lagoa, surgiam bodegas, feiras e pequenos comércios. Era comum que a movimentação começasse cedo, com animais sendo trazidos para venda e moradores circulando em busca de produtos. A lagoa era, literalmente, um centro de encontro social e econômico.

Mas não era só trabalho. Havia também o lazer. Os banhos na lagoa eram lembrados com carinho por gerações. Famílias passavam tardes inteiras às suas margens, crianças corriam, jovens se encontravam. Era ali que se construíam memórias afetivas, histórias de infância e tradições que passavam de pai para filho.

A Lagoa da Telha, portanto, não era só água parada. Ela era movimento, era vida. Representava o elo entre o natural e o humano, entre a necessidade e a cultura.

Para muitos, a lagoa simbolizava a própria alma da cidade. Um espaço que unia trabalho, lazer, identidade e pertencimento.

O “progresso” e o aterramento:

Com o passar dos anos, Iguatu cresceu. Novas ruas foram abertas, avenidas asfaltadas, prédios construídos. A cidade se modernizava. Mas, no meio desse processo, a Lagoa da Telha passou a ser vista de outra forma: como um “problema” que atrapalhava o avanço urbano.

Sem saneamento básico, a lagoa começou a acumular lixo e esgoto. O mau cheiro incomodava, as muriçocas proliferavam. Em vez de pensar em medidas de preservação e recuperação, a decisão do poder público foi radical: aterrar a lagoa.

Na década de 1970, máquinas chegaram ao centro da cidade. Durante semanas, caminhões despejavam barro e areia sobre as águas. Aos poucos, o espelho d’água desaparecia. O que era vida se transformava em entulho.

Os jornais registraram a polêmica. Parte da população defendia a obra como necessária para o progresso. Outra parte denunciava como uma agressão à memória e à natureza de Iguatu. O que ninguém podia negar era que a cidade estava enterrando um de seus maiores símbolos.

Ver a lagoa desaparecer foi, para muitos, como assistir a um funeral. Era o fim de uma era.

Jornal O Povo - 31 de outubro de 1979
Jornal O Povo - 31 de outubro de 1979
Jornal O Povo - 29 de outubro de 2029
Jornal O Povo - 29 de outubro de 2029
As consequências da perda:

A decisão de aterrar a Lagoa da Telha trouxe consequências que se arrastam até hoje. A primeira delas foi ambiental. Sem a lagoa, que funcionava como uma bacia natural, o centro de Iguatu passou a sofrer com enchentes constantes. Cada chuva forte lembrava à cidade o preço da decisão tomada.

A biodiversidade também desapareceu. Os peixes, as aves, as plantas aquáticas sumiram. O que antes era um ecossistema vibrante virou um espaço asfaltado e sem vida.

As consequências sociais também foram grandes. A comunidade perdeu um espaço de lazer, de encontro, de convivência. O que antes era uma praça natural virou ruas movimentadas, comércio, trânsito. A relação das pessoas com a natureza foi rompida.

Culturalmente, a cidade perdeu parte de sua identidade. As novas gerações cresceram sem conhecer a lagoa. Muitas nem sabem que, sob aquelas ruas, existiu um dia um espaço cheio de histórias.

O desaparecimento da Lagoa da Telha foi mais do que uma mudança urbana: foi uma ruptura na memória coletiva de Iguatu.

A memória que resiste:

Apesar de soterrada, a Lagoa da Telha continua viva. Ela resiste na memória de quem a conheceu. Moradores mais antigos contam com saudade dos banhos, das pescarias, das feiras. Para eles, a lagoa não desapareceu: ela apenas mudou de lugar, passando a existir dentro da lembrança.

Essa memória é poderosa. Ela transforma a lagoa em patrimônio imaterial, algo que não pode ser visto fisicamente, mas que vive nas histórias, nas fotografias antigas, nos relatos passados de geração em geração.

A Lagoa da Telha, hoje, é também um símbolo de resistência. Lembrar dela é recusar o esquecimento, é afirmar que a cidade tem uma origem que não pode ser apagada.

Para muitos, resgatar essa memória é tão importante quanto preservar qualquer monumento físico. É um ato de justiça com a história da cidade.

O futuro possível:

A história da Lagoa da Telha nos ensina muito. Mostra que o progresso sem cuidado pode destruir mais do que construir. Mas também mostra que a memória pode ser um caminho de reconstrução.

Não é possível voltar no tempo, mas é possível pensar em alternativas. Um memorial que conte a história da lagoa, um espaço cultural que valorize sua memória, ou até projetos de revitalização urbana que lembrem da sua existência.

Outras cidades já transformaram espaços degradados em áreas de lazer, parques e centros culturais. Iguatu pode aprender com esses exemplos. Reviver a Lagoa da Telha, nem que seja na memória, é um passo importante para recuperar a identidade perdida.

Conclusão:

A Lagoa da Telha não é apenas um pedaço de água soterrado no centro de Iguatu. Ela é parte da identidade, da memória e da história da cidade.

Esquecê-la é deixar que uma parte de Iguatu morra para sempre. Lembrá-la é resistir. É dar sentido ao passado e esperança ao futuro.

Resgatar a Lagoa da Telha é um ato de memória, mas também de planejamento para que erros semelhantes não se repitam. É um convite a pensar uma cidade que cresça sem destruir suas raízes.


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